Reconfiguração geopolítica contemporânea
Publicada em 6 de março de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 06/03/2026
Emergiu, ao final da Segunda Guerra Mundial, um sistema geopolítico bipolar, com Estados Unidos e a então União Soviética disputando a proeminência global. Com o esfacelamento da União Soviética, o sistema internacional passou a uma ordem unipolar, dominada pelos Estados Unidos. Foi quando o escritor Francis Fukuyama profetizou o “fim da história” com a hegemonia das democracias liberais.
A atualidade revela um cenário multipolar, no qual atores como China e Rússia ampliam cada vez mais sua influência regional e global, ainda que sem muito alarde.
Nos últimos meses, dois acontecimentos emergiram como marcos da desconformidade americana: a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos, e o bombardeio conjunto dos Estados Unidos e de Israel que matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, juntamente com outros altos líderes daquele país. Tais eventos têm apenas distância geográfica entre si, já que são manifestações de uma nova fase de competição geopolítica entre grandes potências, impactando diretamente o equilíbrio regional, as normas internacionais e as relações de poder global.
A prisão de Maduro dentro do em que era Presidente e a morte de Khamenei, na capital do Irã, quando participava de reunião do alto comando, escancararam a incapacidade da ONU e a aparente irrelevância do Direito Internacional diante dos interesses das grandes potências.
Eu não desejo o mal de ninguém, mas descreio que o mundo tenha ficado pior com a prisão de Maduro e a partida forçada de Khamenei. Contudo, é fundamental observar que Venezuela e Irã são grandes produtores de petróleo alinhados com Rússia e China. Esses dois grandes adversários geopolíticos dos americanos veem seus importantes fornecedores de petróleo “garroteados”. A prisão de um e a morte de outro não são meras manifestações ideológicas. Se fosse apenas essa a motivação, a comunista Cuba, que está a 140 quilômetros dos Estados Unidos, seria a primeira da fila.
Os acontecimentos na Venezuela e no Irã reforçam a visão de que os Estados Unidos estão dispostos a adotar medidas coercitivas para reconfigurar alinhamentos políticos e estratégicos conforme seus interesses geopolíticos. Os episódios analisados demonstram que os Estados Unidos permanecem preparados para empregar o uso da força e operações especiais como instrumentos centrais de sua política externa. Aliás, notaram que Lula nunca mais falou em abandonar o dólar como moeda nos contratos internacionais?
Até o momento, China e Rússia reagiram apenas de modo retórico às ações unilaterais de Washington. Ambos argumentam em favor da soberania estatal, da não intervenção e de uma ordem internacional regulada por normas e instituições multilaterais. A retórica chinesa condenou a ação militar no Irã como violação do direito. Não deixa de ser curioso observar duas potências de perfil autoritário invocando violação ao Direito.
O conjunto desses eventos sinaliza que a ordem internacional atravessa um momento de multipolaridade tensionada, no qual grandes potências competem por influência não apenas por meios econômicos ou diplomáticos, mas também por meio de ações militares de alto impacto. Essa tendência aumenta o risco de confrontos indiretos e de reconfiguração de engrenagens estratégicas, como alianças políticas, cadeias de energia e parcerias econômicas internacionais.
A prisão de Nicolás Maduro e o bombardeio que resultou na morte de Ali Khamenei são episódios que reforçam a tese de um mundo em transição geopolítica, no qual Estados Unidos, China e Rússia disputam não apenas influência, mas também os próprios parâmetros da ordem internacional. Tais eventos demonstram que a soberania estatal, as normas sobre o uso da força e a estabilidade regional estão sob pressão, preparando o terreno para um sistema internacional que se mostra cada vez mais fragmentado e competitivo.
