QUANTAS VIDAS CABEM EM UMA EXISTÊNCIA? Para a Maninha
Publicada em 4 de setembro de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 04/09/2026
Há momentos na vida em que o tempo parece parar, não porque tenha deixado de passar, mas porque alguma coisa dentro de nós percebe que uma época terminou. Esta semana perdi minha irmã. Antes dela, já haviam partido meus pais e meu outro irmão. Aos 65 anos, começo a perceber que não se trata apenas da perda de pessoas queridas. Há algo maior desaparecendo: uma família que existia como uma unidade original, formada em torno de nossos pais, de uma casa que também já não existe, de lembranças, de hábitos, de histórias que somente aqueles que viveram juntos conseguem compreender inteiramente.
Quando morrem os últimos irmãos de uma geração, não desaparecem apenas indivíduos. Desaparece também uma determinada forma de existir no mundo. É como se uma porta se fechasse lentamente. Atrás dela ficam os nossos primeiros anos, as vozes dos pais, as brincadeiras da infância, os almoços em família, as dificuldades compartilhadas, as festas, as perdas e as alegrias. Fica um mundo que não existe mais, embora continue para sempre dentro de nós.
Talvez seja essa uma das características mais silenciosas do tempo: descobrimos que não estamos apenas ficando mais velhos. Estamos sobrevivendo aos mundos que nos formaram. E quantos mundos já vivemos?
Quando olho para trás, percebo que minha própria existência parece ter sido formada por várias vidas sucessivas. Não vidas no sentido religioso ou metafísico da palavra, mas diferentes épocas, diferentes circunstâncias, diferentes maneiras de enxergar o mundo e a mim mesmo. Comecei a advogar há mais de quarenta anos. Naquele tempo, não havia computador sobre a mesa, internet, telefone celular, armazenamento em nuvem ou inteligência artificial. Havia uma máquina de escrever. A palavra tinha um peso diferente porque sua correção exigia tempo. Hoje, uma inteligência artificial pode produzir, em poucos segundos, um texto que levaria horas para ser datilografado.
O mundo profissional que conheci no início da advocacia praticamente desapareceu. Não foi apenas a tecnologia que mudou. Mudaram a velocidade, os costumes, a linguagem, as relações humanas e a própria percepção que temos do tempo. Mas foi também ele que fez o que sou hoje. Talvez seja por isso que a morte de alguém tão próximo produza uma espécie de interrupção na rotina. A morte devolve o ser humano ao tempo. Ela nos obriga a olhar para trás. E, quando olhamos para trás, percebemos que a vida não é uma linha contínua. É feita de camadas. Há o menino que fomos, o jovem que acreditava saber para onde estava indo, o adulto que construiu uma profissão, o pai ou a mãe que constituiu sua própria família, o homem ou a mulher que envelhece e começa a assistir à partida daqueles que acreditava que estariam sempre ali. Somos todos esses personagens ao mesmo tempo.
Talvez viver seja justamente perceber que carregamos dentro de nós várias versões de nós mesmos. O menino não desapareceu completamente. O jovem também não. Ainda corro pelos sonhos deles. O profissional que começou a trabalhar há quarenta anos continua, de alguma maneira, sentado diante daquela velha máquina de escrever, imaginando o futuro.
O problema é que o futuro chegou. E chegou de uma maneira que aquele jovem provavelmente não teria imaginado. Assim como a máquina de escrever marcou uma época da minha vida, o computador marcou outra. Depois veio a internet. Depois o telefone inteligente. Agora, a inteligência artificial. Em pouco mais de quatro décadas, atravessei uma transformação tecnológica que, em outros períodos da história, teria levado séculos. Mas a maior transformação talvez não tenha ocorrido nas máquinas. Ocorreu em nós. Cada geração acredita viver em um mundo relativamente estável. Depois descobre que estava apenas entre duas mudanças. Um breve lampejo entre duas eternidades.
E, nesse mesmo intervalo, vimos pessoas nascerem, envelhecerem e morrerem. É nesse ponto que a morte de minha irmã adquire um significado que ultrapassa a dor pessoal. Com ela, parte da memória familiar deixa de ter testemunhas. Parte importante do meu universo afetivo se foi. Alguém que poderia dizer: “Eu me lembro de quando você era assim.” E talvez seja justamente essa a razão pela qual a morte de um irmão, quando os pais já partiram, tenha uma dimensão tão particular. Os irmãos são os últimos habitantes daquele primeiro território familiar. Quando eles vão embora, percebemos que somos nós que passamos a carregar a memória de uma época que já não possui mais seus personagens principais.
É uma responsabilidade silenciosa. A partir de determinado momento da vida, deixamos de ser apenas filhos. Tornamo-nos também depositários da memória daqueles que vieram antes de nós. Talvez seja essa uma das poucas formas de vencer parcialmente a morte: continuar contando as histórias. Não para negar a ausência, mas para impedir que a existência daqueles que amamos seja reduzida à data de nascimento e à data de morte.
Minha irmã não é apenas alguém que morreu esta semana. Ela pertence a uma história que começou muito antes de mim e que, de alguma maneira, continuará enquanto houver alguém capaz de lembrar. E talvez seja isso que fazemos durante toda a vida: perdemos pessoas, objetos, profissões, casas, cidades, ideias e tecnologias, enquanto tentamos preservar alguma coisa essencial de nós mesmos. Mudamos de mundo várias vezes sem perceber. Até que um dia uma perda nos obriga a olhar para trás e compreender a dimensão da viagem. A máquina de escrever ficou para trás. Meus pais já não estão fisicamente conosco. Meus irmãos já não estão presentes. Muitos velhos e bons amigos partiram. E eu continuo aqui, olhando para esse estranho século XXI e tentando compreender como foi possível viver tantas épocas dentro de uma única existência. Talvez esta seja a grande descoberta da maturidade: não vivemos uma única vida. Vivemos muitas. Há várias vidas uma dentro da outra. A criança que fomos vive dentro do adulto que nos tornamos. O jovem advogado que começou diante de uma máquina de escrever ainda existe dentro daquele que hoje conversa com uma inteligência artificial.
Quando perdemos alguém que pertenceu ao nosso primeiro mundo, uma dessas vidas termina definitivamente. Mas as outras continuam. É preciso então seguir. Não porque esqueceremos os que partiram, mas justamente porque não os esqueceremos. A vida continua não como uma negação da morte, mas como sua resposta. Talvez, no fim, seja isso que nos resta: continuar vivendo, continuar lembrando, continuar aprendendo e continuar mudando. Porque o mundo muda. Nós mudamos. As máquinas mudam. As pessoas que amamos partem, embora jamais esquecidas. E, apesar de tudo, alguma coisa permanece. A memória. E essa extraordinária capacidade humana de olhar para uma família que já não está inteira, para um mundo que desapareceu, e ainda assim dizer e reconhecer que isto fica vivo em nós. E talvez seja justamente aí que descubramos quantas vidas cabem, afinal, dentro de uma única existência.
