POBRES EDITORES – DA “SÉRIE” QUE TEMPO!
Publicada em 25 de maio de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 22/05/2026
Durante muito tempo, editar um jornal era uma tarefa relativamente simples. Havia uma ordem natural das coisas, era elementar, quase pedagógica. Os banqueiros apareciam na editoria de economia; os políticos, na seção de política; e os criminosos, naturalmente, na página policial. Cada um no seu quadrado, como se dizia antigamente, quando ainda havia alguma vergonha institucional e o cinismo precisava usar disfarce.
Hoje, o trabalho nas redações ficou dramaticamente mais complexo. O editor já não sabe em qual caderno encaixar determinadas figuras nacionais. Há empresários que atuam como ministros sem voto, políticos que operam como despachantes de luxo e financistas que parecem personagens saídos de um inquérito policial escrito por Kafka em parceria com Nelson Rodrigues.
O Brasil conseguiu realizar aquilo que parecia impossível: fundiu economia, política e caso de polícia num único ecossistema. Uma espécie de tríade tropical onde o poder financeiro compra influência política, a influência política produz favores estatais e os favores estatais acabam invariavelmente frequentando algum processo judicial, alguma delação premiada ou alguma operação da Polícia Federal com nome criativo.
Veja-se o caso de Daniel Vorcaro. O homem, com os bolos recheados por bilhões e com uma velocidade financeira incompatível com o brasileiro médio que leva quinze anos para financiar um Fiat Uno usado, passou a comprar nacos inteiros da República. Não metaforicamente. Literalmente! Bancos, terrenos, influência, relações, ativos estratégicos — tudo circulando na mesma atmosfera adornada por mansões de superluxo e estonteantes modelos internacionais na esfera rarefeita onde ministros, parlamentares e magnatas parecem frequentar o mesmo buffet permanente da República.
A dificuldade contemporânea do jornalismo é objetiva. Onde colocar a notícia? Na editoria econômica, porque envolve bancos e bilhões? Na política, porque Brasília inteira parece girar em torno dessas operações? Ou na polícia, porque certas conexões levantam perguntas que jamais seriam respondidas numa democracia saudável sem o auxílio de mandados judiciais, CPIs e algum procurador insone?
Antigamente, um banqueiro queria parecer respeitável. Hoje, quer parecer superstar com autoridades dos três poderes, metaforicamente, nos bolsos. E Brasília, que antes fingia ao menos algum pudor republicano, tornou-se um grande condomínio corporativo onde as fronteiras entre interesse público e interesse privado são tão nebulosas quanto uma ata de reunião do Banco Central escrita depois de três taças de vinho.
O problema é que a mistura não produz apenas confusão editorial; produz deformação institucional. Quando o sistema financeiro passa a influenciar diretamente a política, e a política passa a proteger seletivamente determinados grupos econômicos, cria-se uma aristocracia informal. Não uma elite produtiva, mas uma casta. Uma camada blindada onde prejuízos são socializados (e pagos por nós, os contribuintes “patos” da nação), lucros são privatizados (para muito poucos, distantes dos “patos” que pagam a conta quando dá errado) e relações valem mais do que leis.
Enquanto isso, o cidadão comum segue acreditando naquela velha fantasia escolar segundo a qual existem “os poderes da República”, independentes e harmônicos, como ensinou Montesquieu. Na prática, há momentos em que parece existir apenas um grande balcão nacional de convergências convenientes.
Talvez por isso os jornais estejam tão confusos. Não é culpa dos editores. O país virou um labirinto moral onde o sujeito concede entrevista sobre inovação financeira pela manhã, almoça com líderes políticos à tarde e, à noite, precisa consultar advogados criminalistas “por precaução institucional”. O Brasil contemporâneo não cabe mais em editorias separadas. Aqui, a economia financia a política, a política protege os negócios e a polícia tenta entender o que sobrou da fronteira entre ambas.
E pensar que houve um tempo em que bandido não era tratado como Vossa Excelência e precisava ao menos esconder o rosto.
