PLURALISMO – QUANDO O JORNALISMO ILUMINA O PODER
Publicada em 13 de março de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 13/03/2026
Ainda não chegamos à metade de março e a jornalista Malu Gaspar, da Rede Globo, já reúne méritos suficientes para figurar entre os grandes destaques do jornalismo brasileiro neste ano. Em uma sequência de reportagens firmes, minuciosas e corajosas, realizou aquilo que o Presidente dos Estados Unidos e a chamada Lei Magnitsky tentaram sem êxito: lançar luz sobre aspectos obscuros da atuação do ministro Alexandre de Moraes.
A investigação começou ao trazer a público o curioso e desproporcional contrato de honorários firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa e dos filhos do ministro. O valor impressiona: 129 milhões de reais. Parte da quantia já teria sido paga antes da liquidação da instituição financeira, sem que se saiba com mínima clareza — ou sequer com razoável precisão — quais serviços justificariam montante tão elevado. Trata-se de uma cifra que, por si só, suscita questionamentos inevitáveis.
Em seguida, a jornalista expôs diálogos e condutas que revelariam uma relação, no mínimo, inadequada entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal. Inclusive diálogos no dia da prisão do banqueiro. O golpe decisivo contra a narrativa defensiva de Alexandre de Moraes veio quando se demonstrou que a negativa da autenticidade das mensagens trocadas no dia da prisão de Vorcaro não resistia à perícia realizada no telefone do próprio banqueiro.
Sob outra perspectiva, porém, o episódio revela algo maior: uma vitória do pluralismo. Parlamentares de oposição, advogados de acusados e diversos órgãos de imprensa tentaram, sem sucesso, trazer à tona elementos que indicariam condutas impróprias do ministro. Coube, finalmente, a uma jornalista realizar esse trabalho.
É justamente aqui que emerge a importância do pluralismo. O jusfilósofo italiano Norberto Bobbio observou, com precisão, que “há trinta anos éramos todos democratas; hoje somos todos pluralistas”. Em uma sociedade verdadeiramente plural — e não apenas formalmente democrática — multiplica-se o número de instituições e forças sociais interpostas entre o poder central e o indivíduo. Montesquieu, talvez o mais agudo analista do despotismo, ensinava que a diferença essencial entre um Estado despótico e um Estado livre reside precisamente na existência desses corpos intermediários. No primeiro, eles simplesmente não existem; no segundo, atuam como mecanismos de contenção e equilíbrio do poder. Também Hegel desenvolveu essa ideia ao tratar das “esferas particulares” que se interpõem entre o cidadão e o poder central. Ao contrário do modelo medieval, em que o poder se concentrava fortemente na figura do monarca e do Estado, a sociedade plural se caracteriza pela dispersão e pelo compartilhamento do poder por meio de instituições intermediárias.
Imprensa livre, sindicatos, entidades de classe e organizações da sociedade civil são alguns dos instrumentos por meio dos quais a cidadania participa da formação da vontade coletiva. Esses corpos intermediários não substituem os representantes eleitos, mas ampliam e qualificam a participação popular na vida pública.
Nesse sentido, a lamentável relação de intimidade entre o banqueiro — já amplamente descrito em reportagens — e um ministro do Supremo Tribunal Federal, agora exposta ao escrutínio público, revela algo além do mérito indiscutível da jornalista. Mostra, na prática, como funciona uma sociedade plural: diferentes instituições e vozes independentes atuando para iluminar aquilo que um poderoso Ministro do STF preferiria manter nas sombras.
