Pensamento PRÊT-À-PORTER
Publicada em 5 de junho de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 05/06/2026
O mundo moderno oferece uma quantidade impressionante de facilidades. Nunca foi tão simples comprar, viajar, comunicar-se ou obter informações. Em poucos segundos, qualquer pessoa consegue descobrir a população da Mongólia, a altura do Monte Everest ou a escalação de um time de futebol do outro lado do planeta. O problema é que, junto com tantas facilidades, surgiu uma tentação igualmente moderna: a de terceirizar o próprio pensamento.
Antigamente, quando alguém desejava formar opinião sobre determinado assunto, precisava ler, pesquisar, comparar argumentos e, frequentemente, suportar a desagradável sensação de conviver com dúvidas. Hoje, felizmente ou infelizmente, esse trabalho pode ser evitado.
Existem opiniões prontas para praticamente tudo. Se o assunto é economia, alguém já preparou um pacote completo de explicações. Se o tema é política, há um manual disponível. Se a discussão envolve comportamento, cultura, religião ou educação, basta localizar o grupo adequado e adotar o respectivo conjunto de convicções.
É o que alguns autores chamam de pensamento prêt-à-porter. A expressão vem da moda francesa. Prêt-à-porter significa, literalmente, “pronto para usar”. São roupas produzidas em série, dispensando o trabalho do alfaiate e os ajustes personalizados. O consumidor escolhe o tamanho, veste a peça e segue seu caminho.
Com as ideias parece ocorrer algo semelhante. Ao invés de construir uma opinião própria, muitos acabam preferindo adquirir uma já confeccionada. Recebem um pacote completo contendo diagnósticos, culpados, soluções, indignações e até mesmo os adjetivos que devem ser utilizados em cada situação.
A vantagem é evidente. Pensar dá trabalho. Exige estudo, reflexão, paciência e, sobretudo, a disposição de admitir que talvez estejamos errados. O pensamento pronto elimina esse desconforto. Oferece respostas imediatas para questões complexas e proporciona ainda o conforto psicológico de pertencer a uma comunidade de pessoas que concordam entre si. Não é preciso investigar. Basta repetir.
Curiosamente, esse fenômeno não possui uma ideologia exclusiva. Existe pensamento prêt-à-porter à esquerda e à direita. Há quem explique todos os problemas da humanidade pelo capitalismo. Outros atribuem todos os males à esquerda. Alguns enxergam preconceito em qualquer divergência. Outros identificam conspirações em qualquer notícia. Mudam os personagens, mas o roteiro permanece praticamente o mesmo. A realidade, entretanto, costuma ser menos disciplinada do que os manuais ideológicos. Ela insiste em apresentar fatos inconvenientes.
O filósofo francês Julien Benda, em sua famosa obra “A Traição dos Intelectuais”, já observava fenômeno semelhante no início do século passado. Segundo ele, muitos intelectuais haviam abandonado a busca da verdade para se transformarem em militantes de causas políticas. Em vez de examinar criticamente a realidade, passaram a fornecer justificativas para aquilo em que já acreditavam. Em outras palavras, trocaram a investigação pela torcida. Talvez seja justamente essa a maior ameaça do pensamento prêt-à-porter.
Não há existência de opiniões divergentes, o que é saudável e necessário numa sociedade livre. O perigo reside na substituição da reflexão pela adesão automática. Quando as conclusões são escolhidas antes dos fatos, o pensamento deixa de ser instrumento de conhecimento para se tornar simples mecanismo de confirmação, reverberação de uma ideia pré-pronta.
O curioso é que vivemos na era da informação e, simultaneamente, na era dos raciocínios simplificados. Temos acesso a mais dados do que qualquer geração anterior, mas frequentemente demonstramos menos disposição para questionar as próprias certezas. Talvez porque as dúvidas não gerem curtidas. Talvez porque a reflexão profunda não caiba em vídeos de trinta segundos. Ou talvez porque seja mais confortável receber as opiniões prontas do que ter de fabricá-las por conta própria. Seja qual for a explicação, permanece uma constatação simples. Roupas prêt-à-porter podem ser extremamente úteis. Economizam tempo, dinheiro e esforço. Mas ideias prêt-à-porter costumam apresentar um inconveniente. Elas podem servir perfeitamente ao grupo que as produziu e, ainda assim, não servir a quem as veste.
Por isso, antes de adotar uma opinião pronta, talvez valha a pena fazer o mesmo que fazemos diante de uma roupa: experimentar, olhar no espelho e verificar se realmente nos cabe e nos deixa confortáveis. É preciso cuidado para não estarmos apenas usando a “roupa” intelectual de outra pessoa ou grupo.
