O lado B da polarização

Publicada em 6 de novembro de 2026

Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 09/10/2026

Não é segredo para ninguém que o nosso país está polarizado entre Lula e o PT, de um lado, e o bolsonarismo e a direita, de outro. No discurso lulopetista, quem votou em Flávio Bolsonaro é fascista e de extrema direita. A resposta vem pronta: quem votou em Lula é comunista. Parece que pensar o Brasil ficou reduzido a escolher o insulto.

Pois bem. Segundo o TSE, Lula recebeu cerca de 64 milhões de votos; Flávio, quase 60 milhões. Convenhamos: estes resultados não transformam o Brasil num país de 64 milhões de comunistas e 60 milhões de fascistas. A conta eleitoral não autoriza semelhante conclusão sobre as convicções de cada cidadão.

A meu ver, a enorme rejeição aos dois candidatos ajuda a explicar o resultado. Muitos votaram em Lula por considerarem Flávio pior. Outros escolheram Flávio apenas porque não queriam Lula na Presidência mais uma vez. Há convicção, certamente, mas também existe o voto contrariado, dado para impedir a vitória do adversário. Quem escolhe o que considera menos ruim não assume, por isto, as ideias de quem recebeu seu voto.

Pela retórica das campanhas, o centro desapareceu. A centro-esquerda e a centro-direita também. Até a esquerda e a direita moderadas parecem ter sido expulsas do mapa político brasileiro. Ou se é comunista, ou se é fascista. Será mesmo? O eleitor pode defender políticas sociais e responsabilidade fiscal, valorizar a liberdade e cobrar serviços públicos decentes. Não precisa pedir licença às militâncias.

O curioso é que muitos repetem estas acusações sem saber exatamente o que significam. Não conhece a história, não distingue os conceitos, mas aprendeu a palavra que ofende. O rótulo pejorativo basta. Em vez de enfrentar o argumento, desqualifica-se o adversário. E o debate termina justamente onde deveria começar.

Enquanto isto, o orçamento federal de 2026 reservou cerca de R$ 6,4 bilhões para os fundos eleitoral e partidário; Enquanto isso milhões de brasileiros continuam sem saneamento adequado, porque a verba é um terço do valor dado aos partidos. Para financiar a disputa pelo poder, encontram-se bilhões; para enfrentar carências elementares, multiplicam-se as explicações. É sim uma escolha de prioridades que deveria provocar mais indignação do que a preferência eleitoral do vizinho. Continuamos a exportar commodities, como o minério de ferro, e a importar máquinas e outros produtos industrializados de maior valor agregado feitos a partir do minério exportado. O desafio é transformar mais da nossa riqueza em tecnologia, produção e empregos aqui dentro. Mas discutir competitividade, a educação e indústria exige um trabalho que uma ofensa nas redes sociais dispensa. A violência grassa nas grandes cidades. A saúde pública continua marcada por filas e atendimento insuficiente. Segundo o IBGE, o Brasil ainda tinha, em 2025, 8,4 milhões de pessoas de 15 anos ou mais sem saber ler e escrever. Este dado permanece constrangedor.

Este é o lado B da polarização: a troca de acusações e ofensas ocupa o espaço que deveria ser dedicado à apresentação e à discussão de projetos para solucionar os problemas reais do país. A energia gasta para hostilizar o outro faz falta na formulação de propostas e na cobrança de resultados. Mas o importante parece ser “lacrar”, chamando o adversário de petralha, comunista ou fascista. A militância comemora. Os problemas continuam.