O Brasil que exporta natureza e importa inteligência

Publicada em 21 de agosto de 2026

Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 21/08/2026

O agronegócio brasileiro vem demonstrando o que acontece quando conhecimento e nature­za se encontram. Pesquisa, correção de solos, genética, máquinas, senso­riamento, previsão climática, gestão e inovação transfor­maram áreas an­tes consideradas pouco produtivas em uma das maiores plataformas de produção de alimen­tos do nosso planeta. O agro é “tech” porque deixou de ser apenas terra e es­forço físico. Passou a incorporar ciên­cia.

Esse exemplo deveria orientar o restante da economia. Somos grandes exportadores de soja, minério de ferro, petróleo, café e outras matérias-primas.

Entretanto, frequentemente ven­demos o produto de menor valor e com­pramos de volta o produto industrializa­do, carregado de tecnologia, marca e margem de lucro. Exportamos minério e importamos equipamentos. Exportamos petróleo e importamos derivados.

Exportamos café verde e vemos o maior valor ficar com quem torra, em­bala, distribui e constrói a marca. A Alemanha praticamente não planta café,mas é um dos grandes exportado­res do produto; compra o café e faz toda a industrialização das cápsulas.

Não há qualquer demérito em expor­tar commodities. Muito pelo contrário, elas pagam contas, geram divisas e sustentam parcela relevante da econo­mia. O erro está em acreditar que isto basta.

Nenhuma família inteligente vende permanentemente seus melhores in­gredientes por pouco para comprar a refeição pronta por muito. O Brasil pre­cisa associar natureza e inteligência, aproveitando suas vantagens para cri­ar cadeias industriais, tecnologia, em­pregos qualificados e marcas globais.

Isto não será obtido por decreto nem por slogans sobre reindustrialização.

Exige estabilidade institucional, se­gurança jurídica, infraestrutura, capital, pesquisa, integração entre universi­dades e empresas, formação técnica, sistema tributário compreensível e am­biente em que investir não seja uma aventura.

O empresário não precisa de discur­sos de amor. Precisa de regras estáveis, concorrência leal, crédito possível e um Estado que não o trate simultanea­mente como suspeito, financiador ines­gotável e adversário ideológico.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimen­to não pode significar devastação.

O Brasil possui a oportunidade histórica de se tornar uma grande potência alimentar, energética e ambi­ental.

Temos condições extraordinárias para produzir energia limpa, para desenvolver biocombustíveis, ampliar agricultura de baixo carbono e utilizar a biodiversidade na indústria farmacêuti­ca, cosmética e de novos materiais.

Preservar e produzir não são nec­essariamente verbos inimigos. A in­teligência serve justamente para com­patibilizá-los.