Gramsci, a Escola de Frankfurt e o que estamos vivendo no Brasil
Publicada em 3 de janeiro de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 02/01/2026
A Escola de Frankfurt, fundada na década de 1920, desenvolveu um corpo teórico crítico que marcou profundamente o pensamento social e político contemporâneo. Seus conceitos de indústria cultural, razão instrumental, crítica ao capitalismo avançado e emancipação social atravessaram fronteiras e ganharam espaço no pensamento político latino-americano de esquerda. As ideias frankfurtianas foram incorporadas por movimentos intelectuais, partidos políticos e governos progressistas da América Latina, destacando-se as adaptações locais, as tensões teóricas e o impacto prático sobre agendas políticas relacionadas à comunicação, à cultura, à educação e à crítica ao neoliberalismo.
Já Antonio Gramsci (1891–1937) foi um filósofo e dirigente comunista italiano, considerado um dos principais pensadores marxistas do século XX. Preso pelo regime fascista de Benito Mussolini, escreveu, durante o período de prisão, os célebres Cadernos do Cárcere, nos quais desenvolveu sua concepção original sobre o poder, a hegemonia e a dominação cultural. Sua teoria da dominação cultural representou uma reformulação do marxismo clássico, deslocando o foco da transformação social da esfera exclusivamente econômica também para a esfera ideológico-cultural. Isto exerceu profunda influência sobre a esquerda mundial e, posteriormente, sobre movimentos políticos e intelectuais na América Latina, em especial o Foro de São Paulo. De forma bem resumida, o Foro de São Paulo é uma organização política internacional formada por partidos e movimentos de esquerda da América Latina e do Caribe, criada em 1990, em São Paulo, por iniciativa do Partido dos Trabalhadores (PT) e de Fidel Castro, com o objetivo de reunir a esquerda latino-americana após o fim da União Soviética e da Guerra Fria.
Embora partam de contextos distintos, ambos convergem em três pontos fundamentais: crítica ao economicismo marxista clássico, centralidade da cultura e da educação e estratégia política indireta e de longo prazo.
A “guerra de posição” gramsciana dialoga com a análise frankfurtiana das democracias de massa, nas quais a revolução aberta é substituída por disputas simbólicas, institucionais e culturais prolongadas. Verdade que alguns, como Adorno, eram céticos quanto à possibilidade de uma hegemonia emancipatória nos moldes gramscianos, enquanto outros e o incensado pela esquerda Herbert Marcuse dialogam mais diretamente com Gramsci.
Um dos pontos em comum da teoria gramsciana e da Escola de Frankfurt é o conceito de hegemonia cultural. Sustentam que, nas sociedades ocidentais modernas, o poder capitalista é sustentado por um complexo de instituições da “sociedade civil” (escolas, igrejas, meios de comunicação, universidades, sindicatos, associações etc.) que difundem a ideologia dominante. Com isso, a “guerra de movimento” (revolução armada) estaria ultrapassada e, em seu lugar, a esquerda deveria priorizar uma “guerra de posição”, isto é, a disputa pela hegemonia cultural dentro da sociedade civil. Saiu a ideia de revolução armada, entrou a busca da hegemonia cultural.
Ao deslocar a luta revolucionária para o plano da cultura, da educação, dos meios de comunicação e da sociedade civil, Gramsci e a Escola de Frankfurt ofereceram às esquerdas contemporâneas um novo caminho estratégico: conquistar, por meio dos formadores de opinião (intelectuais, jornalistas, artistas, presidentes de sindicatos e todo tipo de associação), os corações e mentes antes de avançar diretamente na conquista do poder de Estado, para instaurar um regime socialista. Somente conquistando essa liderança cultural e moral seria possível promover mudanças estruturais e alcançar uma transformação para a sociedade socialista.
Não é isso que estamos assistindo no Brasil?
