Crescer para empregar

Publicada em 1 de agosto de 2026

Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 31/07/2026

O crescimento econômico não é uma abstração que interessa apenas a economistas, bancos ou ao mercado financeiro. Ao contrário, diz diretamente com a vida de todos. É o mecanismo que permite abrir empresas, ampliar as existentes, elevar a arrecadação sem aumentar alíquotas, financiar políticas públicas e, sobretudo, criar empregos. Num país ainda marcado pela pobreza, pela informalidade e pela baixa renda, crescer não é uma opção estética. É uma necessidade social.

É importante dimensionar o desafio sem repetir números imprecisos. Dizer quantos jovens “chegam ao mercado de trabalho” a cada ano não é tão simples quanto contar aqueles que completam dezoito anos. Alguns começam a trabalhar antes; outros permanecem estudando; alguns estudam e trabalham; outros não procuram ocupação e, portanto, não integram a força de trabalho. Não existe uma fila que se renova integralmente no dia do aniversário.

Ainda assim, os dados dão a dimensão do problema. No segundo trimestre de 2025, segundo a PNAD Contínua do IBGE, a população brasileira em idade de trabalhar (pessoas com quatorze anos ou mais) era estimada em 174,1 milhões. Os jovens de dezoito a vinte e quatro anos correspondiam a 12,3% desse total. Falamos de aproximadamente 21,4 milhões de jovens nessa faixa etária. Dividido este contingente pelos sete anos que formam o grupo, chega-se a uma ordem de grandeza próxima de três milhões de pessoas por corte anual. Não significa que exatamente três milhões ingressem no mercado em cada ano. Significa que o país precisa oferecer, continuamente, estudo, qualificação ou oportunidade de trabalho a uma geração anual de milhões de brasileiros.

O dado fica ainda mais eloquente quando confrontado com o estoque já existente de pessoas sem ocupação. Em 2025, mesmo com a menor taxa anual de desemprego da série iniciada em 2012 (já escrevi outro artigo sobre a grosseira incorreção desta taxa), havia em média 6,2 milhões de desocupados. No primeiro trimestre de 2026, o IBGE ainda registrava 6,6 milhões de pessoas procurando trabalho, além de 2,7 milhões de desalentados — aqueles que gostariam de trabalhar, mas haviam desistido de procurar. Portanto, não basta absorver uma parcela dos jovens que chegam à idade laboral. É preciso criar oportunidades também para milhões de adultos que já estão na fila, para os desalentados que deixaram a fila e para os trabalhadores informais que buscam ocupação mais produtiva e protegida.

Aqui aparece uma conta que a política raramente apresenta. Se a economia apenas repuser postos encerrados, continuará faltando espaço para os novos trabalhadores. Se criar empregos em quantidade insuficiente, parte da juventude será empurrada para a informalidade, a dependência familiar, o desalento ou, nos casos mais trágicos, para o recrutamento pelo crime. O jovem sem perspectiva não desaparece da sociedade. Sua frustração reaparece sob a forma de pobreza, violência, adoecimento, emigração ou desperdício de talento. Os mais velhos, por sua vez, são expelidos precocemente do mercado de trabalho.

Também não basta qualquer crescimento. Uma economia pode crescer concentrada em setores que são muito automatizados, pouco integrados ao restante do país ou incapazes de gerar ocupações na escala necessária. O crescimento de que precisamos deve combinar produtividade e emprego. Deve estimular indústria, construção civil, serviços modernos, infraestrutura, tecnologia, agricultura e pequenos negócios. Precisa criar postos qualificados sem desprezar as atividades capazes de incorporar rapidamente trabalhadores com menor formação, enquanto a educação corrige o déficit acumulado.

Há quem trate crescimento econômico e política social como projetos adversários. É um equívoco! Sem crescimento, a disputa pelo orçamento torna-se uma guerra entre carências. Saúde concorre com educação; previdência concorre com investimento; assistência concorre com infraestrutura. Com crescimento sustentado, não desaparecem as escolhas, mas aumenta a base econômica que as financia. O melhor programa de transferência de renda continua sendo indispensável para quem necessita. Mas o melhor programa de emancipação é uma economia capaz de oferecer trabalho digno.

O desafio será ainda mais complexo porque convivemos com duas forças aparentemente contraditórias. De um lado, milhões de jovens precisam encontrar sua primeira oportunidade. De outro, a população envelhece e trabalhadores maduros precisam permanecer economicamente ativos por mais tempo. A solução não está em colocar uma geração contra a outra. Está em expandir a economia suficientemente para aproveitar ambas: a energia e a formação recente dos jovens; a experiência e a memória profissional dos mais velhos.

Por isso, toda promessa eleitoral deveria responder a perguntas elementares: qual é a estratégia para o crescimento? Quais setores poderão gerar empregos? Como melhorar a produtividade? Como reduzir o custo para se investir e contratar? Como formar trabalhadores para as vagas que surgirão? Quantos empregos se espera criar e como o resultado será medido? Sem estas respostas, “gerar emprego” não passa de uma frase simpática repetida em palanque.

Um país que recebe a cada ano uma nova corte de aproximadamente três milhões de jovens não pode se contentar em administrar a estagnação. Crescer pouco durante longos períodos não é estabilidade. É distribuir escassez entre gerações. O Brasil precisa crescer porque os seus jovens não podem esperar, seus desempregados já esperaram demais e seus idosos terão de permanecer ativos por mais tempo. A economia deve existir para servir às pessoas. Mas, para servi-las, precisa antes ser capaz de produzir.