APOSTAS ELETRÔNICAS – DO ENTRETENIMENTO AO VÍCIO

Publicada em 17 de abril de 2026

Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 17/04/2026

Violência vicária

Nos últimos anos, o Brasil passou a conviver com um fenômeno silencioso, porém devastador: a explosão das apostas em plataformas digitais. O que começou como um mercado restrito a poucos entusiastas transformou-se rapidamente em uma avalanche de sites, aplicativos e propagandas que prometem ganhos fáceis e imediatos. Hoje, empresas como a Bet365, Betano e Sportingbet investem pesado em publicidade e disputam agressivamente a atenção de milhões de brasileiros.

A popularização das apostas online ganhou força após a abertura legal prevista na Lei nº 13.756 de 2018, que permitiu a exploração das chamadas apostas de quota fixa. Desde então, o setor cresceu em ritmo impressionante, impulsionado por publicidade massiva, patrocínios esportivos e forte presença nas redes sociais.

Embora não seja um apostador, minha tendência é uma posição liberal também em relação a isto. Parto do princípio de que cada adulto decide o que é melhor para si. O problema surge quando os jogos deixam de ser ocasionais, podem ser feitos a qualquer hora do dia ou da noite, apenas usando o celular. Aí passam a ocupar espaço constante na vida cotidiana, estimulados por tecnologia, marketing agressivo e acesso instantâneo. Não se trata de a pessoa ir até um cassino jogar; a realidade é que há um bombardeio ininterrupto de ofertas pelo celular. Mais ou menos como um alcoolista carregar no bolso, o dia inteiro, uma garrafa de uísque.

As plataformas de apostas são construídas com técnicas semelhantes às utilizadas em cassinos e jogos eletrônicos. Por trás dessa aparente diversão existe um mecanismo psicológico poderoso, cuidadosamente estruturado para estimular o comportamento repetitivo. O telefone celular transforma-se em uma espécie de cassino permanente. Já não falamos aqui de uma questão meramente comportamental, onde a pessoa se desloca até um local de entretenimento. Estamos falando de vício, onde a vítima carrega no bolso o celular que alimenta sua compulsão e pelo qual recebe propaganda e propostas vinte e quatro horas por dia.  Pequenas vitórias ocasionais, bônus de entrada, créditos gratuitos e notificações constantes criam no usuário a sensação de que o próximo lance pode compensar todas as perdas anteriores. Essa lógica ativa um ciclo mental perigoso: a expectativa permanente de recuperação.

Muitos apostadores passam a acompanhar jogos não mais pelo esporte, mas pela ansiedade da aposta. A cada derrota surge a necessidade de “recuperar” o dinheiro perdido. E a tentativa de recuperação leva a novas apostas, frequentemente maiores e mais arriscadas. Com o tempo, esse comportamento repetitivo pode evoluir para um verdadeiro vício. A pessoa passa a apostar diariamente, várias vezes ao dia, muitas vezes sem controle sobre os valores envolvidos.

Os sinais desse processo são conhecidos: dificuldade de parar de apostar, irritação quando não se aposta, tentativas constantes de recuperar perdas, ocultação de gastos da família e uso de dinheiro destinado a despesas essenciais. Em muitos casos, o salário inteiro desaparece em poucos dias, consumido por uma sequência de apostas malsucedidas.

O impacto nas famílias é profundo. Quando o orçamento doméstico passa a ser drenado por apostas sucessivas, surgem conflitos, dívidas e insegurança financeira. Há relatos cada vez mais frequentes de pessoas que recorrem a cartões de crédito, empréstimos ou até mesmo vendem bens pessoais na tentativa desesperada de recuperar o que perderam.

Outro fator preocupante é a forma como o mercado de apostas se apresenta ao público jovem. Influenciadores digitais e campanhas publicitárias frequentemente retratam as apostas como uma forma moderna de ganhar dinheiro. O risco de perda – que sempre é muito maior – nunca aparece com a mesma intensidade que as promessas de ganho.

O Brasil ainda não soube construir um modelo de regulação capaz de enfrentar esse fenômeno. Urge que se reconheça a dimensão social do problema. Quando um sistema incentiva comportamentos compulsivos que podem evoluir para dependência, o prejuízo ultrapassa o indivíduo. Se este sistema tem liberdade de “estimular” este vício dia e noite através dos celulares, está passando da hora de impor limites. A diminuição do uso de cigarro, lembre-se, só veio com limitações à sua publicidade.

No final das contas, a avalanche das apostas online não produz apenas vencedores e perdedores em jogos esportivos. Produz famílias endividadas e ansiedade crescente além de bilhões de reais desviados de gastos essenciais. Quando o entretenimento se transforma em vício, deixa de ser apenas um jogo. Especialmente quando compromete o sustento das famílias. Aí já se transformou num problema social que exige atenção urgente.