A TRAIÇÃO DOS INTELECTUAIS

Publicada em 3 de julho de 2026

Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 03/07/2026

Os tempos em que vivemos são curiosos. Talvez sempre tenham sido, mas a idade nos torna mais atentos a certas peculiaridades que antes passavam despercebidas. Uma delas é a crescente dificuldade de encontrar alguém disposto a discordar do próprio grupo.

Antigamente, ao menos na minha ingenuidade da época, eu imaginava que os intelectuais fossem pessoas vocacionadas a criar problemas. Não problemas para os outros, mas para as certezas estabelecidas. Eram indivíduos que desconfiavam dos consensos, questionavam modismos e faziam perguntas incômodas justamente quando todos pareciam confortáveis demais com as respostas. Mais ou menos como Sócrates fazia, guardadas as devidas proporções.

Hoje, às vezes tenho a impressão de que a atividade intelectual sofreu alguma transformação. O intelectual de antigamente costumava desafiar o poder. O contemporâneo, não raras vezes, parece disputar uma vaga nele. Veio-me essa reflexão ao reler “A Traição dos Intelectuais”, obra publicada em 1927 pelo filósofo francês Julien Benda. O livro tem quase cem anos e, ainda assim, parece escrito para os nossos dias.

Benda observava que os homens dedicados ao pensamento — professores, escritores, juristas, filósofos e artistas — haviam abandonado a defesa da verdade, da razão e da justiça para se tornarem militantes das paixões políticas do momento. Em outras palavras, deixaram de ser árbitros para vestir a camisa de um dos times. O problema não era participar do debate público. Benda jamais defendeu que intelectuais vivessem isolados numa torre de marfim, contemplando o universo enquanto o mundo desmoronava ao redor. O que ele criticava era algo diferente: a substituição da verdade pela conveniência política. O intelectual continuava falando. Apenas deixava de procurar a verdade para defender uma causa. Eis uma diferença sutil, mas decisiva.

No Brasil contemporâneo, por vezes parece existir uma estranha uniformidade em determinados ambientes acadêmicos, culturais e jornalísticos. Certas opiniões são recebidas como demonstrações de inteligência. Outras, como evidências de atraso moral, ignorância ou má-fé. O curioso é que a diversidade, tão celebrada em discursos e seminários, frequentemente não alcança a diversidade de pensamento. Pode haver diversidade de sotaques, de origens, de preferências culturais e até de cardápios. Mas diversidade ideológica nem sempre é vista com o mesmo entusiasmo. Não raro, é enfrentada com olhar de censura.

Naturalmente, não se trata de fenômeno exclusivo da esquerda. A história demonstra que intelectuais podem se apaixonar por governos, líderes e ideologias de todas as cores. O próprio Benda escreveu observando nacionalistas, fascistas e outros movimentos que floresciam na Europa de seu tempo. Mas seria difícil negar que, no ambiente universitário e cultural brasileiro das últimas décadas, determinadas correntes de pensamento conquistaram posição predominante. Nada haveria de errado nisso, não fosse um pequeno detalhe: a função do intelectual não é integrar uma torcida organizada.

Quando um professor passa a selecionar fatos para proteger uma narrativa; quando um jornalista passa a relativizar princípios conforme o destinatário da crítica; quando um jurista adapta suas convicções à conveniência do governante de ocasião; quando um artista transforma toda manifestação estética em panfleto, talvez estejamos diante exatamente do fenômeno descrito por Julien Benda.

A traição não ocorre porque alguém possui convicções políticas. Todos possuem. A traição ocorre quando as convicções passam a determinar quais fatos serão aceitos e quais serão ignorados. Quando a conclusão vem antes da investigação. Quando a ideologia deixa de ser instrumento de interpretação da realidade para se tornar filtro obrigatório da própria realidade.

O mais curioso é que muitos desses intelectuais continuam se apresentando como rebeldes. Combatem sistemas dos quais participam, desafiam estruturas que ajudam a controlar e denunciam poderes dos quais frequentemente são beneficiários. É uma espécie de revolucionário institucionalizado, figura que talvez merecesse estudo sociológico próprio.

Julien Benda acreditava que a civilização dependia da existência de pessoas dispostas a defender princípios universais mesmo quando isso contrariasse governos, partidos, multidões ou interesses pessoais. Talvez sua expectativa fosse elevada demais. Afinal, intelectuais são seres humanos e, como todos nós, também sucumbem às tentações da vaidade, da influência e do pertencimento. Mas a advertência permanece atual.

Uma sociedade pode sobreviver a maus governos. Pode sobreviver a crises econômicas. O que se torna mais difícil é sobreviver quando aqueles que deveriam examinar criticamente o poder passam a justificá-lo; quando aqueles que deveriam buscar a verdade passam a selecionar versões convenientes dela; e quando aqueles que deveriam iluminar o debate público preferem atuar como soldados de uma causa.

Porque, nesse momento, talvez não seja apenas o intelectual que tenha sido traído. Talvez seja a própria inteligência.