A falácia do nível de emprego
Publicada em 20 de março de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 20/03/2026
Periodicamente, o país é surpreendido por anúncios otimistas sobre o mercado de trabalho. Divulgam-se números que indicam queda no desemprego e melhora nas condições de ocupação da população. As manchetes destacam uma economia aparentemente robusta, com milhões de brasileiros empregados e uma taxa de desemprego em trajetória de queda. Os dados são divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a chamada PNAD Contínua.
Mas por trás desses números existe uma realidade muito mais complexa — e, muitas vezes, menos animadora do que indicam as estatísticas oficiais.
O primeiro ponto que precisa ser compreendido é o critério adotado para definir quem está desempregado. Aí uma surpresa: “desempregado” não é só quem está “empregado”. Ou seja, se somarmos quem está empregado e quem está desempregado, a soma não dá 100%. Aqui um dos pontos cruciais. Outra questão importante é quem está “ocupado” pelos critérios estatísticos adotados. Pela métrica utilizada, uma pessoa é considerada ocupada se tiver realizado qualquer atividade remunerada por pelo menos uma hora na semana de referência da pesquisa. Em outras palavras, alguém que trabalhou apenas algumas horas, de maneira eventual, já entra na estatística como trabalhador ocupado. Não está, portanto, no índice de desemprego.
Esse critério já cria uma distorção evidente. Um indivíduo que conseguiu um pequeno serviço temporário, um “bico” ocasional ou uma atividade esporádica, passa a ser classificado como empregado, embora sua situação econômica permaneça extremamente precária. A estatística melhora substancialmente; a realidade social, muitas vezes, não.
Outro aspecto pouco debatido diz respeito às pessoas que recebem benefícios assistenciais do governo. Milhões de brasileiros são beneficiários de programas como o Bolsa Família ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Essas pessoas, embora não estejam empregadas, também não entram na contagem de desempregados se não estiverem procurando trabalho naquele momento. Assim, permanecem fora da taxa oficial de desemprego, ainda que dependam integralmente de transferências públicas para sobreviver.
Há ainda outro grupo que desaparece das estatísticas tradicionais: aqueles que simplesmente deixaram de procurar emprego. São pessoas que gostariam de trabalhar, mas perderam a esperança de encontrar uma oportunidade. Como não estão ativamente buscando uma vaga na semana de referência da pesquisa, deixam de ser classificados como desempregados. Tornam-se invisíveis para o indicador principal.
Esse fenômeno também inclui uma parcela crescente de indivíduos que não trabalham e tampouco estudam, permanecendo à margem do mercado de trabalho e do sistema educacional. Os chamados “nem nem” (nem trabalham e nem estudam). Ainda assim, como não estão procurando emprego formalmente, não entram na taxa de desemprego.
O resultado é um paradoxo estatístico. O desemprego oficial pode cair enquanto o número de pessoas em situação de informalidade, dependência de benefícios públicos, desalento ou subocupação permanece elevado. Cria-se, assim, uma narrativa numérica positiva que nem sempre corresponde à experiência concreta vivida pela população.
Por verdade, deve ser dito que não foi o atual governo que criou estes índices. É importante reconhecer que a metodologia adotada segue padrões internacionais e busca medir fenômenos específicos do mercado de trabalho. O problema não está necessariamente na técnica estatística, mas na forma simplificada com que esses números são apresentados no debate público. Também por tentar anunciar uma “verdade” que não existe. Quando se divulga apenas a taxa de desemprego sem explicar seus critérios e limitações, transmite-se uma percepção no mínimo incompleta da realidade.
O verdadeiro retrato do mercado de trabalho não pode ser resumido a um único indicador. É necessário observar a qualidade dos empregos, o nível de renda, a estabilidade das ocupações e o grau de dependência de políticas assistenciais. Uma economia saudável não se mede apenas pela redução de um índice. Mede-se pela capacidade de gerar empregos produtivos, formais e capazes de garantir segurança econômica às famílias.
Se milhões de pessoas sobrevivem de ocupações intermitentes, dependem de benefícios públicos ou simplesmente desistiram de procurar trabalho, a queda da taxa de desemprego pode esconder uma fragilidade estrutural muito maior.
Nesse contexto, a chamada melhora do nível de emprego corre o risco de transformar-se em uma espécie de miragem estatística. Os números podem parecer animadores apenas nos relatórios oficiais. Mas, para grande parte da população, a realidade continua marcada pela incerteza, pela informalidade e pela dificuldade de encontrar um trabalho estável e digno.
