A ESMAGADORA VITÓRIA DA DIREITA
Publicada em 9 de outubro de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 09/10/2026
Sou dos poucos (raros, talvez) que acreditam que o segundo turno não é “jogo jogado”. É nítido, a meu ver, o favoritismo de Flávio Bolsonaro, fortalecido pelo resultado do primeiro turno. Mas eleição tem uma inconveniência para quem gosta de certezas antecipadas: ainda depende do eleitor. E o eleitor, sabemos todos, nem sempre se comporta como esperam os candidatos, os analistas e os entusiasmados torcedores das redes sociais.
Ocorre que, mesmo na hipótese de uma improvável vitória de Lula, há um resultado que dificilmente será alterado: a direita é a grande vencedora desta eleição. A atenção concentrada na disputa presidencial acaba por esconder a enorme importância do que saiu das urnas. O poder político não se esgota na cadeira de Presidente da República, por mais que a campanha nos induza a pensar assim.
Veja-se a composição do Congresso. Na classificação adotada pela Folha de S. Paulo, a direita conquistou 303 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. No Senado, levantamento do Poder360 aponta 49 dos 81 integrantes alinhados mais à direita na próxima legislatura. Os critérios de classificação variam, especialmente quando entra na conta o conhecido e flexível centro político brasileiro. Ainda assim, o avanço conservador é evidente e terá consequências que irão muito além da campanha.
Nos estados, o quadro reforça essa conclusão. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais e provavelmente RJ(está em discussão a validade, ou não, dos votos de Garotinho), para ficar em alguns exemplos de evidente peso político e econômico, elegeram governadores de direita já no primeiro turno. O PT ganhou apenas a Bahia, Ceará e Piauí(sim, tem eleição no Piauí também). Os governos da direita têm estrutura, capacidade de articulação e influência sobre as respectivas bancadas.
Qualquer que seja o vencedor do segundo turno, dificilmente as presidências da Câmara e do Senado escaparão de partidos situados à direita. E presidir uma Casa legislativa significa muito mais do que ocupar a cadeira mais visível do plenário. Significa influir sobre o que será votado, quando será votado e o que poderá continuar esperando, às vezes indefinidamente, por uma oportunidade que nunca chega.
No Senado, essa circunstância ganha especial importância diante da promessa de fazer avançar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, uma das bandeiras da campanha. Uma presidência favorável à pauta poderá dar impulso político a esses pedidos. Naturalmente, a maioria eleitoral não dispensa fundamento jurídico, devido processo e os quóruns exigidos: uma condenação depende de 54 votos. Mas seria ingenuidade imaginar que a nova composição não modificará a relação entre o Senado e o Supremo.
Verdade que a política brasileira conhece aproximações que, durante a campanha, pareciam impossíveis. Lula tem experiência nesse terreno. O problema é que o tempo é curto e a disposição de negociar não elimina o preço da negociação. Quanto maior a dependência de forças que cresceram combatendo o governo, menor a liberdade para executar o programa apresentado ao eleitor. E governar permanentemente sob condições impostas pelos outros cobra seu preço.
Lula, hoje aos 80 anos, se vencer, poderá encontrar uma dificuldade “nunca vista antes na história deste país” para governar, tomando emprestada a expressão que tanto marcou seus discursos. Uma vitória pessoal não apagará o resultado das eleições legislativas nem transformará governadores adversários em aliados. Poderá ganhar a Presidência e passar os quatro anos seguintes tentando obter, a cada votação, condições para exercê-la.
Se perder, como me parece mais provável, anuncia-se um final melancólico de carreira. Para quem ocupou por tanto tempo o centro da política nacional, ver a própria derrota acompanhada da expansão acachapante dos adversários no Congresso e nos estados terá um significado que ultrapassa a perda de uma eleição. A trajetória continuará tendo seu lugar na história; o desfecho, porém, poderá ficar muito distante daquele que Lula imaginou para si.
Por isso, memo sem considerar o segundo turno decidido, a direita já é a grande vencedora. Afinal, conquistou poder suficiente para fazer avançar suas pautas e determinar boa parte das condições em que o próximo Presidente terá de governar.
