A epidemia do estrangeiro
Publicada em 28 de abril de 2026
Novo artigo de nosso sócio diretor, Dr. Olindo Barcellos da Silva, publicado no Jornal Gazeta Mineira do dia 24/04/2026
Relatos antigos narram calamidades coletivas que se espalhavam com rapidez, contaminando povos inteiros e alterando costumes. Eram fenômenos que, embora distintos em natureza, tinham em comum a capacidade de se propagar sem grande resistência. Nos dias atuais, longe de tragédias bíblicas, também convivemos com certos modismos que se
disseminam com surpreendente facilidade.
A comunicação verbal e escrita ocupa papel central na convivência humana, servindo como ponte entre ideias, intenções e relações. Ainda assim, não são raras as práticas que, em vez de facilitar, acabam por embaralhar o entendimento. Entre elas, tem destaque a adoção exagerada de termos estrangeiros, sobretudo do inglês, inseridos de forma afetada, disfarçada de natural, no discurso cotidiano, muitas vezes sem qualquer necessidade prática e, às vezes, até sem contexto. Em diversos contextos, especialmente no meio empresarial, observa-se que há uma substituição sistemática de palavras perfeitamente compreensíveis por equivalentes estrangeiros. Não se trata aqui de vocabulário técnico indispensável, mas de escolhas deliberadas que parecem atender mais a uma vaidade linguística e a superação do nosso “complexo de vira-latas”, do que a uma exigência comunicacional. Assim, tarefas simples passam a ser “tasks”, prioridades tornam-se “priorities”. Estes dias ouvi alguém dizer que precisava fazer uma “call” porque a apresentação de um “job” estava próximo ao “deadline”. Pensei “porque não uma chamada de telefone para tratar sobre apresentação de um trabalho cujo prazo final está próximo? Uma tarefa e conversas informais ganham rótulos importados, como se o idioma pátrio fosse insuficiente para dar conta da realidade.
O emprego de vocábulos de outras línguas é aceitável quando necessário, sobretudo em áreas específicas do conhecimento. O que se observa, contudo, é a banalização desse recurso, adotado como marca de distinção, como se a troca de palavras fosse capaz de elevar automaticamente o nível de quem fala. Não é.
No cotidiano profissional, essa prática cria obstáculos desnecessários. Interlocutores são excluídos da compreensão plena da mensagem, reuniões tornam-se menos produtivas e decisões podem ser prejudicadas por ruídos que nada têm de sofisticados. Ao contrário, revelam certa insegurança disfarçada de erudição, como se a simplicidade fosse um defeito a ser evitado. Nem vou citar a simplicidade genial da poesia de Mário Quintana.
No convívio social, o efeito não é muito diferente. O uso reiterado de expressões estrangeiras tende a provocar estranhamento, além de transmitir uma imagem muito pouco natural. A comunicação perde espontaneidade e passa a carregar um tom forçado, que distancia em vez de aproximar. Não se trata de purismo linguístico, mas de bom senso. Esse fenômeno também evidencia um traço cultural recorrente: a tendência de valorizar excessivamente o que vem de fora, mesmo quando há alternativas que sejam claras e eficientes no próprio idioma. A língua portuguesa, rica e expressiva, não carece de substituições constantes para cumprir sua função. Quando isso ocorre sem necessidade, o que se revela não é evolução, mas afetação. Nem mesmo ambientes que exigem rigor técnico escapam dessa inclinação. O uso inadequado de termos estrangeiros pode comprometer a precisão e gerar interpretações equivocadas, o que é particularmente grave em áreas que dependem da exatidão das palavras. A clareza, nesses casos, não é apenas desejável — é indispensável.
Cultivar uma linguagem direta, compreensível e adequada ao contexto é medida de eficiência e respeito. A escolha das palavras deve servir ao entendimento, e não à exibição. Em tempos em que tanto se fala em comunicação eficaz, talvez seja oportuno lembrar que o essencial continua sendo dizer bem — e não parecer dizer melhor.
